BISTRÔ PORTOSOL - Salvador / Bahia
BISTRÔ PORTOSOL
Cozinha Austro-Húngara - Altösterreichische Küche
Salvador - Bahia - Brasil
Rua César Zama, 04 Porto da Barra - Barra
Telefone: (055) 71 3264 - 7339 Celular: (055) 71 9963-6433
Aberto de terça-feira a sábado das 18:37 às 24:59 ... "maomeno"



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Love Food



Love Food,   abrindo o apetite para o amor


      Liebe geht durch den Magen", ou seja, "O caminho do amor passa pelo estômago", diz um antigo ditado de minha terra natal, a Áustria. Dizem isso também em parte da Suíça e na Alemanha. O que muda é apenas o sotaque. Talvez haja outras diferençazinhas de região para região e, quem sabe, de religião para religião.

      Como católico - atualmente só vou à missa de defunto - tenho absoluta convicção de que os povos "lé com cré" com o papa de Roma comem bem. O mesmo posso dizer dos gregos ortodoxos, hindus, budistas, dos muçulmanos e demais africanos. Os protestantes que me perdoem, mas comer gostoso é fundamental.

 

      Já se falou praticamente tudo sobre culinária. Os textos, que compõem essa pequena coletânea, pretendem chamar a sua atenção para pormenores do Love Food, que não devem ser ignorados. Detalhes que excedem ingredientes e modos de preparo.       Love Food significa acariciar o paladar, encher o bucho, aquecer o coração e despertar o apetite para o amor.

 

      Pegando um daqueles guias de restaurantes, tem-se a impressão de estar diante do resultado do júri de um desfile de escolas de samba. Quesitos bem definidos são avaliados com uma seriedade que não combina com as alegrias da mesa. Aliás, medir alegria em centésimos de pontos, muitas vezes é motivo de tristeza. Principalmente por aquele que não foi tão bem avaliado como esperava e merecia. Ouvi falar de suicídios de chefes e donos de restaurantes que perderam estrelas, chapéus de cozinheiro ou outros pontos de referência indicando o nível técnico do estabelecimento.

      Concordo que se avalie o estado dos ingredientes, o modo de preparo, a apresentação do prato. O perigo é passar a enxergar nos manobristas e na recepcionista a comissão de frente de uma agremiação carnavalesca, no cardápio, o samba enredo, nas cebolas, na carne e no peixe, bem como nos pratos artisticamente decorados, os carros alegóricos, no sommelier e no maïtre, mestre sala e porta bandeira, e no resto da brigada, a ala das baianas.

      Deve haver também meios de verificar a relação entre o sabor das produções culinárias e o uso de gorduras, sódio e açúcar. Quem exagerasse na adição de sal, de açúcar refinado ou servisse comida pingando de gordura, perderia pontos importantes. Imagino um tipo de árbitro com a bandeirinha levantada, indicando um impedimento junto às panelas e aos pratos.

      Há um critério que todos os guias de restaurante parecem ignorar: a limpeza e o cheirinho do banheiro. Pudera, a julgar pelo tamanho das porções servidas, o jornalista julgador bem que poderia deixar intestino, rim e bexiga em casa, se essa acrobacia anatômica fosse possível.

      Lavando as mãos na mesa, como eu já vi em filmes, o comensal não precisa nem ir àquele lugar, que tem a ver com o extremo oposto da razão de estar ali, ou seja, comer e beber.

      Outro quesito que não me deixa feliz é o tamanho das porções. Fico constrangido, vendo aquele tequinho de salmão ou fragmento de medalhão de filé no meio dessa gigantesca "lua cheia" de louça do serviço empratado. Dá para se perceber que o cozinheiro se preocupou em esconder a discrepância entre a quantidade de comida e o tamanho do prato, colocando alguns enfeites, pingando e pincelando algum molho colorido ao redor do "assunto principal" dessa tragédia. Garfo e faca, supostamente pertencendo ao faqueiro de um gigante, tropeçando por engano num jantar de anão. Há quem se sinta nessa hora como um monstro pedófilo!

 

      "Hunger ist der beste Koch", ou seja, "o melhor tempero da comida é a fome!", diz um antigo ditado universal.

      Destampando as panelas para ver e cheirar a comida de pessoas de todas as classes sociais, a gente pode ficar com água na boca, ou não. Um ou outro consegue recorrer a imagens de pintores, que através de séculos retrataram rostos sérios, sem expressão, diante de um naco de pão e uma jarra de vinho simples da terra, ou banquetes com travessas e panelas cheias de comida, sendo carregadas para as mesas em cima de tábuas. Há quem saiba dizer se a pintura em questão é de antes ou depois da revolução industrial.

 

      Alguma coisa determinou o tamanho das porções, tornando-as individuais. Antigamente, a comida era colocada no centro da mesa e cada um que sentasse ao redor, se servia, metendo a mão ou a colher de madeira.

      Além da fome, sal era para gente pobre o único tempero. Quem tivesse um quintal, lançava mão de alho e cebola, de salsinha, cebolinha, raiz forte e ervas aromáticas. Coisas, que a gente atualmente usa como bouquet garni.

      Condimentos vindos da Ásia, da África, das Américas eram caríssimos. Um dos livros de culinária em minha estante mostra o facsimile de uma lista de compras do nobre Hans Ritter von Schweinichen. Itens que ele tinha que providenciar para o banquete de um casamento na corte de Henrique IX, Duque de Liegnitz, Baixa Silésia, hoje Polônia, datada de 1594. “Allerlei Würz”, como eles chamavam as mais diversas especiarias custando bem mais caro do que toda a carne de 150 bovinos, 87 ovinos e 59 suínos, sem falar das inúmeras dúzias de frangos, codornas e faisões. Comida a ser preparada para o banquete daquelas bodas.

      É como se hoje em dia pimentas, cominho, cravos, baunilha, páprica, louro, noz moscada, tomilho e manjerona custassem tanto ou mais do que açafrão e ouro em pó.

      E por falar em bovinos, ovinos e suínos, patos, gansos e aves silvestres, a dieta de gente rica, ao longo dos séculos, não tem mudado tanto quanto a dos pobres. É nos países industrializados onde mais se tem observado esse fenômeno. O homem moderno, pós-moderno e antenado com todas as novidades tecnológicas, alimenta-se no ritmo das conexões, tipo banda larga, e dos estímulos que brotam aos borbotões nas telinhas.

      Os filhos da endocrinologista conhecida, quando pequenos, só comiam hambúrgueres e o rebento da médica pediatra se alimenta exclusivamente de pizza... Ou quase! Para ser justo, devo dizer, que aquele garotinho de 8 aninhos, também come lasanha.

      O que podemos esperar de uma juventude que só conhece  junk food, sem ter nenhuma intimidade com frutas e verduras? A criança, que não aprende a gostar de comida saudável, entupindo-se apenas de sanduíches, salgadinhos, croquetes e pedaços de pizza, dificilmente se tornará um gourmand, um adulto, que sabe apreciar boa comida.

      O meu coração preconceituoso aponta logo um culpado! Os puritanos! Os Estados Unidos da América, onde mora a maioria dos protestantes, tipo puritanos, conhecidos por não se permitirem comer gostoso, ingerindo um monte de porcarias, limitando-se a encher o bucho e matar a fome. Não estou sozinho nesta cruzada contra a invasão de protestantes e luteranos no maior país católico do planeta, que é o Brasil!

      O meu discurso não termina com a exortação, o apelo inflamado de marcharmos unidos contra as fritadeiras e todos os alimentos gordurosos, com excesso de sal e açúcar. Serei didático, lembrando "A Festa de Babette", filme dinamarquês de 1987, onde uma jovem senhora francesa católica prepara um banquete para uma comunidade de protestantes, que, não tendo o costume de saborear acepipes e pratos elaborados, muito menos degustar bebidas adequadas para cada prato, estranham de início o que é servido, porém relaxando aos poucos com as explicações de um conhecedor, entregam-se à magia da festa. Continuarei falando de países, onde as pessoas comem gostoso. Na Alemanha por exemplo. No sul da Alemanha, para ser mais exato, já que no norte predominam os protestantes, que historicamente têm outras aspirações e não ligam para a arte da mesa. Aliás, não conheço muitos restaurantes de comida típica oriunda de países onde moram protestantes.

      Alô! Alguém conhece um restaurante típico de comida inglesa, dinamarquesa, sueca, norueguesa ou finlandesa neste nosso Brasil? Deve haver vários, apenas eu não conheço nenhum.

                                                                                                                           

      Em viagens pelo sul do país, fomos "assuntando" o que havia de gostoso para se comer e que tivesse a ver com a culinária da Áustria, Alemanha e arredores. Próximo da costa de Santa Catarina e no Vale do Itajaí, não senti muitos motivos para alegria. Refugiamo-nos em Treze Tílias, no Tirol brasileiro, onde o assado de porco com chucrute, bolinhos de pão mereciam a nota 8,5, porém o Apfelstrudel nota 10, foi a salvação da lavoura. Na rota de fuga, ainda havia a região dos italianos, em Bento Gonçalves, com sopa de cappeletti, polenta frita, galeto ao primo canto, costelinha de porco, saladas e, de sobremesa, sagu com chantily.

 

      Reforça a minha teoria uma das historietas em quadrinhos com o viking "Hägar, o horrível", de Dick Browne, que, como bom americano, sabia o que estava dizendo, ou melhor, colocando o que dizer na boca do seu herói. Na tirinha, que tenho em mente, Hägar invade a Inglaterra pela enésima vez. O primeiro dos três quadrinhos mostra a tropa de vikings marchando, com Hägar à frente. Pelos traços paralelos enviesados, nota-se que está chovendo muito. No segundo quadrinho, um novato faz a pergunta típica ao líder:"Hägar, como é a Inglaterra?". No terceiro e último quadrinho Hägar responde, sem mexer um só fio de barba eriçada, dizendo:"rapaz, se você gostar do clima, vai adorar a comida!"

 

      Ouvi dizer que "Quem é generoso na mesa, é generoso na cama!" Não sei quem inventou esse papo. A rainha Vitória da Inglaterra com certeza que não foi!

 

      Falam tanto da importância das preliminares do ato sexual. Será que isso não vale também para os prazeres da mesa? Será que ao comer a comida semi-pronta e congelada, que colocamos durante apenas um minutinho no forno micro-ondas, a gente sente a mesma alegria que nós vivenciamos depois de comprar, lavar, limpar, cortar, cozinhar alimentos frescos e aprontar os pratos?

      Nem todo mundo tem tempo para cozinhar a própria comida. Interagindo com quem prepara a refeição, de acordo com o nosso gosto, já nos coloca no clima! Love Food é isso!

      Para mim, o tal Love Food é a preliminar imprescindível para a plena satisfação sexual. Ele energiza os nossos sensores. Ele faz com que percebamos o calor do corpo, o cheiro dos cabelos e de cada poro da pele da parceira, do parceiro, o gosto do beijo, o perfume do hálito alheio... 

 

Bom apetite!



Reinhard e Maria Alice Lackinger

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