Love Food
Love Food, abrindo o apetite para o amor
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Liebe geht durch den Magen", ou seja, "O
caminho do amor passa
pelo estômago", diz um antigo ditado de minha terra natal, a
Áustria.
Dizem isso também em parte da Suíça e na Alemanha. O que
muda
é apenas o sotaque.
Talvez haja outras diferençazinhas de região para região e,
quem sabe, de
religião para religião.
Como
católico - atualmente só vou à
missa de defunto - tenho absoluta
convicção de que os povos "lé com
cré" com o papa de Roma comem bem. O mesmo posso dizer dos
gregos
ortodoxos, hindus, budistas, dos muçulmanos e demais
africanos. Os protestantes
que me perdoem, mas comer gostoso é fundamental.
Já se
falou praticamente tudo sobre
culinária. Os textos, que compõem essa pequena coletânea,
pretendem chamar a sua
atenção para pormenores do Love Food,
que não devem ser ignorados. Detalhes
que excedem ingredientes e
modos de preparo.
Love Food significa
acariciar o paladar, encher o bucho, aquecer o coração e
despertar o apetite
para o amor.
Pegando
um daqueles guias de
restaurantes, tem-se a impressão de estar diante do
resultado do júri de um
desfile de escolas de samba. Quesitos bem definidos são
avaliados com uma
seriedade que não combina com as alegrias da mesa. Aliás,
medir alegria em
centésimos de pontos, muitas vezes é motivo de tristeza.
Principalmente por
aquele
que não
foi tão bem avaliado como esperava e merecia. Ouvi falar de
suicídios de chefes
e donos de restaurantes que perderam estrelas, chapéus de cozinheiro
ou outros pontos de
referência indicando o nível técnico do estabelecimento.
Concordo
que se avalie o estado dos
ingredientes, o modo de preparo, a apresentação do prato. O
perigo é passar a
enxergar nos manobristas e na recepcionista a comissão de
frente de uma
agremiação carnavalesca, no cardápio, o samba enredo, nas
cebolas, na carne e
no peixe, bem como nos pratos artisticamente decorados,
os carros alegóricos, no sommelier e
no maïtre, mestre
sala e porta
bandeira, e no resto da
brigada, a ala das baianas.
Deve
haver também meios de
verificar a relação entre o sabor das produções culinárias e
o uso de gorduras,
sódio e açúcar. Quem exagerasse na adição de sal, de açúcar
refinado ou
servisse comida pingando de gordura, perderia pontos
importantes. Imagino um
tipo de árbitro com a bandeirinha levantada, indicando um
impedimento junto às
panelas e aos pratos.
Há um
critério que todos os guias de restaurante parecem ignorar:
a limpeza e o cheirinho do banheiro. Pudera, a julgar pelo
tamanho das porções
servidas, o jornalista julgador bem que poderia deixar
intestino, rim e bexiga
em casa, se essa acrobacia anatômica fosse possível.
Lavando
as mãos na mesa, como eu já
vi em filmes, o comensal não precisa nem ir àquele lugar,
que tem a ver com o
extremo oposto da razão de estar ali, ou seja, comer e
beber.
Outro
quesito que não me deixa
feliz é o tamanho das porções. Fico constrangido, vendo
aquele tequinho de salmão ou
fragmento de
medalhão de filé no meio dessa gigantesca "lua cheia" de
louça do
serviço empratado. Dá para se perceber que o cozinheiro se
preocupou em
esconder a discrepância entre a quantidade de comida e o
tamanho do prato,
colocando alguns enfeites, pingando e pincelando algum molho
colorido ao redor
do "assunto principal" dessa tragédia. Garfo e faca,
supostamente
pertencendo ao faqueiro de um gigante, tropeçando por engano
num jantar de
anão. Há quem se sinta nessa hora como um monstro pedófilo!
"Hunger ist der beste Koch", ou seja, "o melhor
tempero da
comida é a fome!", diz um antigo ditado universal.
Destampando
as panelas para ver e
cheirar a comida de pessoas de todas as classes sociais, a
gente pode ficar com
água na boca, ou não. Um ou outro consegue recorrer a
imagens de pintores, que
através de séculos retrataram rostos sérios, sem expressão,
diante de um naco
de pão e uma jarra de vinho simples da terra, ou banquetes
com travessas e
panelas cheias de comida, sendo carregadas para as mesas em
cima de tábuas. Há
quem saiba dizer se a pintura em questão é de antes ou
depois da revolução
industrial.
Alguma
coisa determinou o tamanho
das porções, tornando-as individuais. Antigamente, a comida
era colocada no
centro da mesa e cada um que sentasse ao redor, se servia,
metendo a mão ou a
colher de madeira.
Além
da fome, sal era para gente
pobre o único tempero. Quem tivesse um quintal, lançava mão
de alho e cebola,
de salsinha, cebolinha, raiz forte e ervas aromáticas.
Coisas, que a gente
atualmente usa como bouquet
garni.
Condimentos
vindos da Ásia, da
África, das Américas eram caríssimos. Um dos livros de
culinária em minha
estante mostra o facsimile
de uma
lista de compras do nobre Hans Ritter von Schweinichen.
Itens que ele tinha que
providenciar para o banquete de um casamento na corte de
Henrique IX, Duque de
Liegnitz, Baixa Silésia, hoje Polônia, datada de 1594. “Allerlei Würz”, como eles chamavam as mais
diversas especiarias
custando bem mais caro do que toda a carne de 150 bovinos,
87 ovinos e 59
suínos, sem falar das inúmeras dúzias de frangos, codornas e
faisões. Comida a
ser preparada para o banquete daquelas bodas.
É
como se hoje em dia pimentas,
cominho, cravos, baunilha, páprica, louro, noz moscada,
tomilho e manjerona
custassem tanto ou mais do que açafrão e ouro em pó.
E por
falar em bovinos, ovinos e
suínos, patos, gansos e aves silvestres, a dieta de gente
rica, ao longo dos
séculos, não tem mudado tanto quanto a dos pobres. É nos
países
industrializados onde mais se tem observado esse fenômeno. O
homem moderno,
pós-moderno e antenado com todas as novidades tecnológicas,
alimenta-se no ritmo das conexões,
tipo banda larga, e dos
estímulos que brotam aos
borbotões nas telinhas.
Os
filhos da endocrinologista
conhecida, quando pequenos, só comiam hambúrgueres e o
rebento da médica
pediatra se alimenta exclusivamente de pizza... Ou quase!
Para ser justo, devo
dizer, que aquele garotinho de 8 aninhos, também come
lasanha.
O que
podemos esperar de uma
juventude que
só conhece junk food, sem ter nenhuma intimidade com
frutas e verduras? A
criança, que não aprende a gostar de comida saudável,
entupindo-se apenas de
sanduíches, salgadinhos, croquetes e pedaços de pizza,
dificilmente se tornará
um gourmand, um
adulto, que sabe
apreciar boa comida.
O meu
coração preconceituoso aponta
logo um culpado! Os puritanos! Os Estados Unidos da América,
onde mora a
maioria dos protestantes,
tipo puritanos,
conhecidos por não se permitirem comer gostoso, ingerindo um
monte de
porcarias, limitando-se a encher o bucho e matar a fome. Não
estou sozinho
nesta cruzada contra a invasão de protestantes e luteranos
no maior país
católico do planeta, que é o Brasil!
O meu
discurso não termina com a
exortação, o apelo inflamado de marcharmos unidos contra as fritadeiras e todos os alimentos
gordurosos, com
excesso de sal e açúcar. Serei didático, lembrando "A Festa
de
Babette", filme dinamarquês de 1987, onde uma jovem senhora
francesa
católica prepara um banquete para uma comunidade de
protestantes, que, não
tendo o costume de saborear acepipes e pratos elaborados,
muito menos degustar
bebidas adequadas para cada prato, estranham de início o que
é servido, porém
relaxando aos poucos com as explicações de um conhecedor,
entregam-se à magia
da festa. Continuarei falando de países, onde as pessoas
comem gostoso. Na
Alemanha por exemplo. No sul da Alemanha, para ser mais
exato, já que no norte
predominam os protestantes, que historicamente têm outras
aspirações e não ligam para a arte da mesa. Aliás, não
conheço muitos
restaurantes de comida típica oriunda de países onde
moram protestantes.
Alô!
Alguém conhece um restaurante
típico de comida inglesa, dinamarquesa, sueca, norueguesa ou
finlandesa neste
nosso Brasil? Deve haver
vários, apenas eu
não conheço nenhum.
Em
viagens pelo sul do país, fomos "assuntando"
o que havia de gostoso para se comer e que tivesse
a ver com a culinária da Áustria, Alemanha e arredores.
Próximo da costa de Santa
Catarina e no Vale do Itajaí,
não senti muitos
motivos para alegria. Refugiamo-nos
em
Treze Tílias, no
Tirol brasileiro, onde o assado de porco com chucrute, bolinhos de pão mereciam a nota 8,5, porém o Apfelstrudel nota
10, foi a salvação da
lavoura. Na rota de fuga,
ainda havia a região dos italianos,
em Bento Gonçalves,
com sopa de cappeletti, polenta frita, galeto ao primo
canto, costelinha de
porco, saladas e, de
sobremesa, sagu com chantily.
Reforça
a minha teoria uma das
historietas em quadrinhos com o viking "Hägar,
o horrível", de Dick Browne,
que, como bom
americano, sabia o que estava dizendo, ou melhor, colocando
o que dizer na boca
do seu herói. Na tirinha, que tenho em mente, Hägar invade a
Inglaterra pela
enésima vez. O primeiro dos três quadrinhos mostra a tropa
de vikings
marchando, com Hägar à frente. Pelos traços paralelos
enviesados, nota-se que está
chovendo
muito. No segundo quadrinho, um novato faz a pergunta típica ao
líder:"Hägar, como é a
Inglaterra?". No terceiro e último quadrinho Hägar responde,
sem mexer um
só fio de barba eriçada,
dizendo:"rapaz, se
você gostar do clima, vai adorar a comida!"
Ouvi
dizer que "Quem é
generoso na mesa, é generoso na cama!" Não sei quem inventou
esse papo. A
rainha Vitória da Inglaterra com certeza que não foi!
Falam
tanto da importância das
preliminares do ato sexual. Será que isso não vale também
para os prazeres da
mesa? Será que ao comer a comida semi-pronta e congelada,
que colocamos durante
apenas um minutinho no forno micro-ondas, a gente sente a
mesma alegria que nós
vivenciamos depois de comprar, lavar, limpar, cortar,
cozinhar alimentos
frescos e aprontar os pratos?
Nem
todo mundo tem tempo para
cozinhar a própria comida. Interagindo com quem prepara a
refeição, de acordo com o
nosso gosto, já nos coloca no clima!
Love Food é isso!
Para
mim, o tal Love Food
é a preliminar imprescindível
para a plena satisfação sexual. Ele energiza os nossos
sensores. Ele faz com que percebamos o calor do corpo, o
cheiro dos cabelos e
de cada poro da pele da parceira, do parceiro, o gosto do
beijo, o perfume do
hálito alheio...
Bom apetite!
Reinhard e Maria Alice Lackinger
Bistrô PortoSol
Rua César Zama, 4, Porto da Barra - Barra
Telefone: (055) 71 3264-7339
Celular: (055) 71 9963-6433
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